shine for all the world to see

…foram três dias de uma felicidade física idiota, sem impurezas, uma felicidade siamesa. A tal ponto que, uma ou duas vezes, espantada por estar sozinha, lancei-me com uma ânsia quase maligna de rastrear as fissuras que a plenitude provavelmente me impedira de ver. Queria desiludir-me. Mas tudo o que encontrei foi de uma limpidez incontestável, como esses céus azul-turquesa que duram um dia inteiro e parecem invulneráveis e eternos. Nada podia prejudicar-nos. Éramos imunes até ao pressentimento.


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como da primeira

Pensou nela. Viu-a sentada na cama, despedindo-se, com o excesso de impaciência que ele costumava atribuir ao amor, à relação sempre insatisfatória que o amor mantém com as despedidas, e depois, já certa de estar sozinha em casa, viu-a lançar-se sobre sua agenda e folheá-la com desespero, tentando desentranhar um nome, um encontro marcado, uma pista crucial. Viu-a frágil, desolada, como que consumida pela esterilidade de sua ânsia, e a descoberta o enterneceu, fazendo-o sentir-se mais poderoso do que nunca.


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20081116102516
- look at me. tell me you’re in love with me.
- i’m not in love with you.
- you just lied.


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Ele, naturalmente, não chorou. Não chorou dessa vez nem nunca mais, e foi engolido nessa noite terrível. Tinham alcançado uma forma rara de perfeição. Viviam no interior de um interior, como nesses ambientes que reproduzem por meios artificiais, entre quatro paredes, atrás de um gigantesco tabique de vidro, para que os visitantes possam admirar seu realismo, a temperatura e a umidade e a pressão e a fauna e a flora de ecossistemas exóticos. Não havia região da bolha que não estivesse recoberta pela membrana. Respiravam normalmente, mas o exterior já começava a se tornar um pouco borrado para eles, embaçado pelas velaturas que, ao exalarem, deixavam nas paredes de vidro.
Tinham feito tudo. Defloraram-se, raptaram-se de suas respectivas famílas, viveram e viajaram juntos, juntos sobreviveram à adolescência e depois à juventude e chegaram à vida adulta, juntos foram pais e choraram o filho morto que nunca chegaram a ver, juntos conheceram professores, amigos, idiomas, trabalhos, prazeres, lugares de veraneio, decepções, costumes, pratos exóticos, doenças – todas as atrações que uma versão prudente, mas versátil desse misto de surpresa e fugacidade que normalmente se chama vida podia oferecer-lhes, e de cada um tinham conservado algo, o rastro singular que lhes permitia recordá-la e voltar a ser, por um momento, os mesmos que a haviam experimentado. E para que a coleção ficasse completa, definitivamente completa, eles mesmos acrescentaram a peça fundamental: a separação.


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‘O que era o resto, qualquer resto, senão pura frivolidade?’

…como o sobrevivente que, antes de dormir, assite diversas vezes ao acidente que quase o mata, e só depois de revivê-lo em pormenores descobre não ter havido nesse dia distrações, nem pavimentos molhados, nem carros fatais, e que esse acidente jamais acontecido roubou, mesmo assim, uma parte de seu futuro, abrindo-lhe uma horrível ferida na alma.


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Insônia

A insônia não passa de uma série de reflexos de uma mente congestionada de pensamentos borbulhantes, que afogam o telespectador pela complexidade em pauta e o impedem de fechar os olhos, equalizar a respiração, e permitir que o sono venha visitá-lo. Pensamentos que, mais tarde, soçobrem e aí preocupação torna-se em vão.


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Cansei.

E agora?


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13 fev. 2007

Que coisa mais destruidora. Ler aquele livro novamente antes de dormir e ficar triste demais pra dormir, ler outro trecho pra ver se aparece algum lampejo de boemia que faz sonhar e faz dormir e achar tudo mais patético. Até que o sono toma conta. Saber que o livro vai me destruir, e continuar lendo.. Porque o livro é bem aquilo que eu queria e precisava e está na minha estante o tempo todo. Esse jeito duro, amargurado, que não pára pra apertar shift ou para deixar respirar. Usa os meus gramatiquismos e tem quase toda a névoa sobre os olhos que eu tenho, essa sensação de que não vale a pena se for fazer bem só depois, porque o agora é tão morrente.. e ler isso reafirmado a cada trecho não faz bem, mas faz viver. Sempre fez. Ainda, leva aos olhos as lágrimas falsas que são simpatizar com o velho e querido book, mas o que machuca de verdade é que ele não tem o tempo de inventar agrimensores e muda a cada página, e não quer ser fantasioso. Quer somente, e desesperadamente, ser. E o rosto moldado tão rudemente pelo tempo na capa do livro me lembra que a crônica de um amor louco não é um amor só, é toda a paixão que consegue não sumir no meio dos dias, entre as poças de sangue no chão do matadouro, nos pátios apáticos das escolas de todo o mundo. E, porra, livro, você é pequenas porções de morrer ofertadas por crônicas mortas, se seu diário me foi companhia das mais brandas? Sim, e grandes bocados de desespero..


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feliz cidade

Quando a felicidade faz uma aparição como convidada especial na vida da pessoa, é muito importante aproveitá-la ao máximo. Pode não ficar por perto muito tempo e, quando for embora, não será terrível pensar que todo o período no qual se poderia ser feliz foi desperdiçado com preocupações sobre quando isso aconteceria?


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O amor acaba, como já alardearam poetas, cronistas e amantes em geral. E é com a falência e aparente extinção de uma relação conjugal que as fábulas fabulosas se multiplicam de forma cinematográfica, exuberante. Barroca, até. Pelo mesmo caminho segue a prosa em que são alinhavadas, fazendo o tempo recuar ou se dispersar em outras dimensões, numa operação ao mesmo tempo rigorosa e lúdica, que lembra um Proust que tivesse lido Cortázar. Sob a ansiedade da solidão, febricitantes sessões de trabalho e agônica ingestão abusiva de álcool.


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