Às vezes, blocos inteiros de passado (surgindo da noite sem aviso) fazem minha alma ranger, como se fossem parti-la em duas. No meio de toda essa aflição – fruto do choque de duas magnitudes do tempo e não de duas experiências sentimentais – chego a pensar que se houvesse algum recurso cirúrgico que me garantisse o esvaziamento de todos e de cada um desses blocos, teria me submetido ao procedimento sem um pio, com os olhos fechados, à la Clementine. Às vezes é bom sonhar com um mundo que promovesse o uso pessoal e voluntário da amnésia, uma vida em que qualquer um fosse capaz, mediante alguns passes simples, de extirpar todos os sentidos que o passar do tempo tivesse feito caducar (assim como qualquer um elimina de um ano para o outro, do índice telefônico de sua agenda, os nomes e números que não vai mais precisar).