Além do mais, tudo me parecia tão familiar… Não conhecia o novo apartamento, mas foi só entrar nele, respirar o perfume que pairava no ar – um cheiro denso, doce, que qualquer um teria atribuído ao enclausuramento, ao calor do lar – para adivinhar a madeira clara, com veios finos, carvalho envelhecido, o único material que você considera suficientemente bom para conviver contigo, para sentir que o conhecia – o apartamento – de memória. Tanto que se um apagão viesse a acontecer, bem agora, poderia orientar-me às cegas, por minha conta, guiada somente pelas instruções da lembrança. Tudo me parecia tão familiar… Como se nem mesmo um dia tivesse passado sem que eu entrasse em contato com você, ouvisse sua voz, ou sentisse o seu cheiro: aquela mistura do sabão em pó da gola da sua camisa com o seu sabonete, com o seu perfume. Como se a sua boca não tivesse beijado a de mais ninguém que não a minha.
…nossas vidas são frações de um inteiro.